V Fórum CIALP . Primeira Sessão
25-02-2016

Rio de Janeiro | No passado dias 24 de Fevereiro, decorreu a primeira sessão do V Fórum CIALP no Auditório da Sede do Instituto de Arquitetos do Brasil, no Rio de Janeiro, pela primeira vez com transmissão ao vivo pela internet.
Esta sessão centrou-se na palestra de Fabiana Izaga (BR) intitulada “O Rio de Janeiro e os desafios contemporâneos no contexto do Congresso Mundial de Arquitetos de 2020”, seguida de mesa-redonda com Luiz Fernando Janot (BR), Pablo Benetti (BR) e João Belo Rodeia (PT), coordenada por Pedro da Luz (Presidente do IAB-RJ).

Transcrevem-se, de seguida, as notícias da primeira sessão do fórum no website do IAB (para quem desejar consultar, (o website apresenta os vídeos da sessão):

Notícia 01:
Os desafios da cidade do Rio de Janeiro e de sua região metropolitana foram discutidos ontem, 24 de fevereiro, no Fórum Internacional “A metrópole contemporânea. Os mundos da lusofonia,” na sede do IAB-RJ, no Flamengo. Para a arquiteta Fabiana Izaga, que apresentou a palestra de abertura do evento, as metas da cidade para os próximos anos são: consolidação da autoridade metropolitana, restruturação da metrópole a partir do grande centro, recuperação da Baía de Guanabara; geração de densidade do território; e o planejamento de uma rede articulada de transporte.

“Planejar em grande escala é a única alternativa de pensar a cidade numa perspectiva de sustentabilidade. Reconhecer o grande centro – Centro, Região Portuária, Rio Comprido, São Cristóvão, Glória e o Centro de Niterói – é indispensável nesse processo, assim como a recuperação e articulação da Baía de Guanabara. É preciso conter ainda o espraiamento da cidade, promovendo o adensamento das áreas estruturadas da Zona Norte, e a criação de uma rede metropolitana de transportes”, defendeu Fabiana Izaga.

Dados apresentados pela arquiteta mostram que 60% da população metropolitana do Rio vivem ao longo das linhas de trens e no entorno da Baía de Guanabara, apontada por Fabiana como uma centralidade importante da região. Porém, parte significativa dos investimentos públicos são aplicados em áreas distantes do centro urbano consolidado. Ela cita como exemplo as linhas de BRTs e a expansão da linha 4 do metrô, que hoje direcionam o crescimento da cidade sem coerência.

“O desenho da inserção do BRT é funcionalista, pois prevê atender um vetor de transporte, mas ignora a ambiência urbana e a escala suburbana. Enquanto o BRT Transcarioca passa por áreas consolidadas e se conecta com o metrô, em Vicente de Carvalho, e as estações de trem de Madureira e de Olaria, o BRT Transoeste estimula a ocupação em áreas frágeis, que deveriam ser protegidas”, explicou Fabiana Izaga.

A arquiteta também criticou a falta de um plano global para o Centro e para a Região Portuária: “as obras do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) estão vindo a reboque das parcerias público-privada (PPP) feita no Porto Maravilha, baseada na venda dos certificados de potencial adicional de construção (Cepacs). Parece-me que apenas 14% dos empreendimentos lançados na área sejam para fins habitacionais. Se não tomarem cuidado, a região vai se transformar num cemitério de prédios comerciais.”

Para o arquiteto e conselheiro federal do CAU/BR Luiz Fernando Janot, hoje é o capital financeiro que determina a morfologia das cidades, e o Rio de Janeiro não foge à regra. Assim como Fabiana, Janot não considera viável pensar o Rio sem levar em consideração a região metropolitana, que abrange 21 municípios e uma população de 12 milhões de habitantes.

“Diariamente, cerca de um milhão de pessoas entram e saem do Rio. A falta de um planejamento metropolitano gera descasos, como a poluição da Baía de Guanabara. Sou carioca e acredito que o Rio possui um significado que poucas cidades brasileiras possuem. Em suas ruas, está estratificada a história. O Centro é a sua alma. A cidade tem uma beleza inigualável. Contudo, seus contrastes são imensos. Conviver com isso é uma amargura cotidiana”, lamentou Janot.

Apesar dos problemas apresentados, o arquiteto e ex-diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU-UFRJ) Pablo Benetti acredita que a solução do Rio de Janeiro está na sua região metropolitana. “As metrópoles concentram, historicamente, os melhores e piores exemplos da humanidade. Ou a gente conserta o mundo a partir da metrópole, ou vamos conviver em situações piores”, afirmou.

Segundo Benetti, apesar da existência de mecanismos legais de planejamento avançados, como os planos diretores e o próprio Estatuto da Cidade, quem dita o desenvolvimento da cidade é o capital financeiro, pensamento que compartilha com Janot. “58% da produção habitacional recente do Rio está concentrada em Bangu, Campo Grande, Guaratiba, Realengo e Santa Cruz, locais distantes do centro urbano consolidado. Esses bairros juntos respondem por 7% dos empregos da cidade, enquanto o Centro, onde a oferta de unidades habitacionais é praticamente nula, concentra 40% do emprego”, justificou Benetti, cuja avaliação é que a habitação deixou de ser um bem de consumo para virar um ativo financeiro.

Para o presidente do IAB, Sérgio Magalhães, a crítica de que a especulação imobiliária e o capitalismo fazem com que a cidade deforme sua imagem ambiental pela produção de espigões precisa ser relativizada. “A terra, em razão de ser propriedade privada, tem as dificuldades que sabemos. No entanto, toda a área de Brasília é pública, e a expansão se deu da forma que conhecemos”, explicou. Ainda segundo o arquiteto, hoje estamos vivendo um tempo em que se constrói um novo conceito de cidade. “As novas gerações já aderiram a esse novo conceito: uma cidade mais amigável; de maior diversidade e menos desigualdade; que não se submete aos isolamentos funcionalistas.”

O Fórum Internacional “A metrópole contemporânea. Os mundos da lusofonia”, que nesta quinta-feira, 25 de fevereiro, vai discutir as características mais importantes das principais cidades dos países/territórios de língua portuguesa, conta com as presenças do presidente do CAU/BR, Haroldo Pinheiro, do presidente Conselho Internacional de Arquitetos de Língua Portuguesa (CIALP), João Rodeia, dos representantes das instituições de Arquitetura e Urbanismo dos dez territórios que compõem o CIALP, e dos presidentes dos CAU estaduais que estão reunidos no Rio de Janeiro.

O fórum faz parte da série de eventos ARQ21, iniciativa que visa a colocar em discussão temas essenciais à arquitetura e às cidades ao longo dos próximos três semestres. O primeiro evento, que se realizará até julho, será dedicado ao tema da Metrópole Contemporânea e o papel de suas áreas centrais para o desenvolvimento. O ciclo surge para estimular as discussões e o desenvolvimento de estudos com foco no 27º Congresso Mundial de Arquitetos, promovido pela União Internacional dos Arquitetos (UIA) – e organizado pelo IAB, que ocorrerá no Rio de Janeiro em 2020.

Notícia 02:
A primeira mesa-redonda do Fórum Internacional “A metrópole contemporânea. Os mundos da lusofonia,” na quarta-feira, 24 de fevereiro, que contou com as participações dos arquitetos Luiz Fernando Janot, João Rodeia e Pablo Benetti, além da mediação de Pedro da Luz Moreira, presenciou um debate interessante sobre o papel do arquiteto x o capital no desenho urbano das cidades brasileiras. Na ocasião, o presidente do IAB, Sérgio Magalhães disse que é preciso relativizar a crítica ao mercado financeiro como definidor das cidades. Para o arquiteto, apesar da importância do capital, os arquitetos desenharam e desenham o espaço urbano. Leia, abaixo, a íntegra da intervenção de Magalhães.

"Há pouco, em Vitória (ES), tivemos a nossa reunião do Conselho Superior do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), que homenageou o arquiteto Carlos Fayet. Um importante líder do IAB, da Federação Nacional dos Arquitetos (FNA) e da Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo (Abea), além de ter sido um importantíssimo profissional com especial atuação a partir do Rio Grande do Sul.

Fayet, num depoimento que fez para nós, do IAB-RJ, nos anos de 1970, que virou depois um conjunto de livros intitulados “Arquitetura Brasileira após Brasília / Depoimentos”, dizia que o ideal dele era que os arquitetos fossem pessoas normais. Ou seja, que houvesse arquiteto inteligente, burro, honesto e mais ou menos. Quando o arquiteto estivesse plenamente inserido na sociedade, em todas suas condições, então, para ele, a arquitetura estaria cumprindo com suas responsabilidades.

Chamo esse testemunho do Fayet porque passamos por esse problema de que ora nós exaltamos nossa possível contribuição como salvadora (e reclamamos de tudo que esteja em desacordo com ela); e ora não fazemos nada, dizemos que a superestrutura é quem manda e passamos toda a responsabilidade para os outros.

O João Rodeia, presidente do CIALP, falou aqui muito bem ao situar esta questão. A democracia tem suas dificuldades. Uma delas é que nos coloca perante a nossa própria dimensão. Enquanto tivemos um inimigo claro na ditadura, desconsideramos a nossa própria dificuldade. Não tenho a ideia de que nós sejamos tão onipotentes como pensamos. Mas tampouco somos destituídos de poder como podemos às vezes dizer.

Quero situar, para concluir com este testemunho que, no desenho das cidades brasileiras, o poder dos arquitetos foi enorme, gigantesco, e decisivo. Foram os arquitetos que determinaram a cidade que temos hoje. Não vamos nos iludir com isso. O desenho magistral do Lucio Costa está aí exemplificando. Foi o desenho de Lucio que permitiu Brasília. Tenho a convicção que qualquer outra das soluções apresentadas no concurso para a capital teria inviabilizado a transferência ao tempo de Juscelino – e, portanto, Brasília teria se transformado em canteiro abandonado. Em outro projeto importantíssimo, Lucio Costa propôs tirar a capital do Rio e levar para a Barra da Tijuca. Está lá na memória do projeto. Isso não é pouca coisa. Não é um gesto gratuito, e é cheio de responsabilidades. Se o Plano não se configurou integralmente, foi por razões econômicas, sociais, culturais e políticas que eram de tal modo fortes e entranhadas na sociedade que não deixaram que acontecesse a proposta de Lucio. Mas, em compensação, o plano levou para a região o investimento prioritário dos governos, por décadas, em detrimento das regiões ocupadas da cidade.

Agora, vai dizer que Lucio Costa fez isso porque estava mal intencionado? Não! Poucos anos antes, o arquiteto grego Constantin Doxiadis, chamado pelo governo da Guanabara para projetar “O Rio do Ano 2000”, desenhou a desconstrução das centralidades do Rio de Janeiro, criando dezenas de centralidades num território que passaria de 180 quilômetros quadrados para oito mil quilômetros quadrados nos anos 2000. Mesmo não tendo sido implantado, serviu para que o governador Lacerda justificasse tirar as favelas da Lagoa e levasse para Santa Cruz. O desenho de Doxiadis dizia que o desenvolvimento industrial estaria lá. Isso tem responsabilidade absoluta no desenvolvimento da nossa cidade.
Não é que Doxiadis estivesse mancomunado com quem quer que seja. E, por óbvio, Lucio também não. Lucio fez seus projetos dentro da maior lisura doutrinária e ética que lhe era tão peculiar.

Pablo e outros comentaram também sobre a questão da terra. A terra, em razão de ser propriedade privada, tem as dificuldades que sabemos. No entanto, Brasília inteira é área pública, e a expansão de Brasília se deu de forma que a gente sabe. Aí também tem uma questão que precisamos relativizar.

Por último, quanto todos nós dizemos que é a especulação imobiliária e o capitalismo que fazem com que a cidade deforme sua imagem ambiental pela produção de espigões, que a cidade se perca num emaranhado de arranha-céus, lembro de um relatório publicado em 1969 sobre o futuro da humanidade. Um relatório oficial da União Soviética. O capítulo da cidade e arquitetura socialistas diz que, no futuro, as habitações estariam localizadas em edifícios com 300, 400 ou mais andares, situados em terrenos livres, dos quais os edifícios ocupariam 2% ou 3% do território e o resto seria ocupado por jardins. Essa era a percepção da elite intelectual arquitetônica da União Soviética, estado comunista, nos anos áureos do modernismo e da Guerra Fria. Portanto, a arquitetura transpassava doutrinariamente do mais capitalista ao mais comunista dos países. Essa é a força da doutrina arquitetônica que a gente, às vezes, desmerece.

É preciso reconhecer que, neste debate, estamos fazendo política. A nossa política passa pela reflexão coletiva em cima do que estamos espacializando – o que estamos tornando espaço construído. Não necessariamente no Congresso Nacional, pelas leis, mas no que podemos construir aqui. Tenho certeza, apoiando o que comentou João Rodeia também, que hoje estamos vivendo um tempo em que se constrói um novo conceito de cidade. As novas gerações já aderiram a esse novo conceito: uma cidade mais amigável, amena, de maior diversidade e menos desigualdade. Uma cidade que não se submete aos isolamentos funcionalistas e que pede uma simultaneidade de usos."

*